A inauguração
A garoa de São Paulo não molha, ó. Ela espera. Fica pendurada no ar feito uma coisa que inda não resolveu cair, e a gente atravessa por dentro dela que nem atravessa fofoca — sai úmido sem ter sido tocado por nada que se possa apontar o dedo. Desci a rampa de mármore novo com o violão grudado no peito feito quem protege a única parte do corpo que ainda guarda um calorzinho, e pensei, e não era a primeira vez, que essa cidade foi levantada por gente com pressa de esquecer de onde veio.
O mármore ainda cheirava a obra. Pó de pedra, cal, verniz fresco na madeira. Tinham aberto aquele corredor por debaixo do Viaduto do Chá feito quem rasga a barriga da cidade pra ver se acha alma lá dentro, e o que acharam foi isto: uma passagem de pedra branca pros ricos andarem sem botar o pé na rua. Branco no chão, branco nas colunas, branco na luz que escorria das luminárias novas. Eu era a coisa mais escura ali que não fosse o veludo das cortinas. Sempre fui. Aprendi faz tempo a entrar num lugar sabendo direitinho quanta luz eu engulo quando entro — e a entrar mesmo assim.
Lá em riba, na Bahia, a noite tinha cheiro de maresia e de dendê e a promessa de que alguém ia rir alto antes de o dia raiar. Aqui a noite tinha cheiro de pedra molhada e de poder. Eu fui aprendendo a gostar do segundo cheiro do jeito que a gente aprende a gostar do que sobrou — sem alvoroço, com lealdade.
Varella me queria visível e invisível ao mesmo tempo, que é o pedido que ele vive me fazendo e que só eu sei cumprir. Toca, Kha. Deixa eles ouvir o Brasil sem entender que o Brasil tá é ouvindo eles. Os outros tenentes cuidavam das portas, dos cofres, das gargantas que precisavam ser convencidas no escuro. Eu cuidava do ar. Da única coisa que entra em todo mundo sem pedir licença, mortal ou não: o som.
O salão se abriu no fim da rampa que nem uma boca.
Era o Salão Almeida Júnior, e tava cheio de uma gente que eu conhecia sem nunca ter sido apresentada — porque é sempre a mesma gente, em toda cidade, em todo século. Os ternos pretos. As joias frias no pescoço das esposas. O brilho de quem nunca precisou escolher entre o orgulho e o telhado. Quadros nas paredes, telas que naquela noite chamaram de arte paulista e que ninguém olhou de verdade, porque ali ninguém tinha ido pra olhar. Tinham ido foi pra ser visto olhando.
E no meio, sentado feito uma pedra pequena e baixa que o rio inteiro tem que contornar, ele.
Vargas era menor do que os jornais faziam crer. Home de poder quase sempre é — guarda o tamanho pra dentro. Charuto. Olho que sorria separado da boca. A nação inteira chamava ele de pai naquele ano, pai dos pobres, pai dos trabalhadores, pai de um país que ele segurava com as duas mãos feito quem segura um cavalo que inda não decidiu se obedece. Olhei pra ele e senti, por baixo da fome antiga que mora em mim agora e que eu mantenho na coleira, uma coisa mais velha que a fome e mais difícil de amansar.
Eu sabia tocar pra um pai. Eu tive um, uma vez. A última vez que toquei pra ele, me ouviu até o fim, com o rosto fechado, e depois me disse com toda a calma do mundo pra onde é que uma pessoa como eu devia ir brilhar. Eu fui. Andei muito. Cheguei nessa cidade de pedra branca que também não me queria, mas que pelo menos não fingia querer — e tem uma honestidade no frio que eu nunca achei no calor.
Não toco pensando nisso. Toco de lá. Tem diferença.
Subi os dois degraus até a cadeira que botaram pra mim, debaixo do foco. Ajeitei o violão no colo que nem se ajeita uma criança que não é da gente mas que confiaram pra gente segurar. A sala foi baixando a voz por conta própria, do jeito que sala faz quando pressente que vai começar alguma coisa. E deixei o silêncio crescer um segundinho a mais do que era confortável — porque o medo de um instante é o que faz o primeiro acorde valer alguma coisa.
Aí toquei.
Não anunciei o nome. Não precisa. Aquela melodia já andava no rádio do país inteiro fazia três anos, já tinha entrado em cozinha de pobre e em sala de rico pela mesma janela, e bastou as primeiras notas — descendo devagarinho, feito mão escorregando num corrimão, feito alguém se achegando de uma porta com medo de bater — pra eu sentir a sala reconhecer antes de entender. Carinhoso entra assim. Pela saudade primeiro, pela letra depois.
Toquei a introdução só no violão, sem cantar, deixando as cordas falarem a parte que palavra só estraga. É uma música que pergunta antes de dizer. Meu coração, não sei por quê. Não sei por quê — começa já confessando que não sabe, e é por isso que é a coisa mais honesta que um brasileiro já escreveu. Todo mundo que se permitiu amar sem licença sabe que é assim que começa: sem saber por quê, batendo feliz sem ter pedido, contra todo conselho.
Aí eu cantei.
Cantei pra "você", que é a palavra mais generosa da língua, porque não tem corpo, não tem nome, não tem o sexo que os outros precisam saber pra decidir se vão deixar a gente amar em paz. Quando eu canto quando te vejo, ninguém na sala sabe quem é o "te". Cada um preenche com o que cabe na cabeça. Eu preencho com o que coube na minha — uma boca rindo no escuro de uma noite que já passou, num lugar que já não me recebe, num corpo que era macio e que era de mulher e que me ensinou que a palavra carinho podia ser perigosa. A canção me deixa dizer isso em voz altíssima, na frente do presidente da república, e sair impune. Foi por liberdade pequena e secreta que nem essa que eu nunca larguei o violão. É a única cela que escolhi morar.
A melodia subiu na ponte — aquela parte que abre o peito, vem, vem, vem, vem — e a sala inteira subiu junto sem saber, os ombros afrouxando, uma esposa fechando os olhos, um home duro engolindo uma coisa que não ia confessar nem dentro do caixão. Vi Vargas parar o charuto no ar. Só isso. Um home que segurava um país inteiro nas mãos, e por quatro compassos as mãos dele esqueceram de segurar.
É isso que eu faço. Não é a magia das que Varella coleciona. É mais antigo. Eu pego a saudade que cada um trancou num quarto e abro a porta com uma chave que serve em toda fechadura, e por um instante todo mundo naquele salão de pedra branca tá chorando a mesma falta — sem saber que é a mesma, sem saber que a mulher escura cantando no foco tá chorando a falta deles tudo junto com a dela. E que a dela é maior. E que ela aprendeu a fazer caber tudo dentro de uma palavrinha de duas sílabas que repete bem devagar.
A última nota eu não deixei morrer. Cortei.
Tirei a mão das cordas no ponto exato em que a saudade tava mais cheia, e o silêncio que veio depois foi mais alto que acorde nenhum — aquele silêncio que dói um cadinho, em que a sala inteira fica pendurada que nem a garoa lá fora, sem se decidir a cair. Um, dois segundos de nada. O melhor que eu sei fazer não é o som. É o buraco que ele deixa.
Aí veio o aplauso, claro. Veio morno e logo veio forte, e veio o sorriso de Vargas, que se levantou meio palmo e baixou a cabeça pra mim — um gesto pequeno, de pai que aprova, e eu recebi com a graça treinada de quem sabe que aprovação de pai nenhum chega na hora que a gente precisava dela. Sorri de volta. Tenho um sorriso que parece gratidão e que é outra coisa, mais velha, mais minha. Ele nunca vai saber a diferença. Quase ninguém sabe.
Mas o sorriso de Vargas não era o pagamento. O pagamento veio depois, de longe, lá do fundo do salão — de onde o Príncipe tinha assistido a tudo sem bater palma uma vez sequer.
O Príncipe atravessou a sala devagar. Merrinvegguio — o senhor a quem até o Varella obedecia, o Regente que delira enquanto a cidade gira e que, mesmo delirando, enxerga mais que todos nós juntos. Ele anda que nem anda quem nunca precisou chegar na frente de ninguém, e foi direto no home do charuto agora que o home do charuto tava mole. Porque era isso que eu tinha feito. Eu não tinha amolecido a sala — a sala era enfeite. Eu tinha amolecido foi ele. Tinha aberto no presidente da república aquela fresta de quatro compassos em que a guarda cai, em que o cavalo esquece por um instante que tá sendo segurado, e era por aquela fresta que o Príncipe entrava agora, de mão estendida, com a voz baixa que ele guarda pros assuntos que decidem de quem é a noite dessa cidade pelos próximos vinte anos. Vi Vargas rir de uma coisa que Merrinvegguio disse. Vi os dois baixarem a cabeça um pro outro feito conhecido velho que acabava de virar sócio. Não precisei ouvir. Aquela música eu também já sabia de cor.
E aí, no meio da prosa, sem parar de falar com o presidente, Merrinvegguio virou só os olhos na minha direção. Me achou no foco. E sorriu.
Foi um sorriso de meio segundo, desses que só quem trabalha pra alguém aprende a ler, e dizia tudo. Dizia funcionou. Dizia obrigado. Dizia que os assuntos iam correr macio dali pra frente — que a porta que eu tinha aberto com seis cordas e uma saudade emprestada valia mais que todos os home calado que ele tinha botado nas saídas. Dizia, sem uma palavra, aquilo que ele nunca ia dizer em voz alta: que a arma mais afiada que ele tinha nessa cidade não usava lâmina. Usava violão. E tava sentada num banquinho debaixo da luz, fingindo que só cantava.
Baixei a cabeça de volta. Uma tenente reconhecendo o senhor que reconhece a tenente. Esse sim foi um sorriso inteiro — o único da noite.
Guardei o violão. Os ricos voltaram a ser vistos olhando pra arte paulista nas paredes. Lá no fundo, Vargas e Merrinvegguio inda conversavam baixo, dois perfis curvados sobre um acerto que jornal nenhum ia noticiar. E a festa fechou em volta do buraco que eu tinha aberto que nem a água fecha em volta da pedra que cai — depressa, esquecendo na hora. Sem perceber que tinha sido aberta. Sem perceber por quem.
Subi a rampa de mármore de volta, contra a corrente da garoa que continuava sem cair. Lá fora, a cidade enterrava mais um dos seus rios embaixo de mais um dos seus monumentos, branca, fria, com pressa de esquecer de onde veio — e eu, que também tinha vindo de longe e também não podia voltar, achei que a gente combinava, eu e ela. Duas coisas que ninguém escolheu e que resolveram ficar mesmo assim.
A noite era minha de novo. Sempre é, depois que a música acaba.
Procurei ela lá no alto, num rasgo do céu entre a garoa que não caía — a estrela d'alva, baixa, teimosa, brilhando sozinha contra a madrugada que já clareava a beirada da cidade. Achei. Acendi um cigarro que eu não precisava fumar, só pra ter de novo um calorzinho contra o peito, e fui andando atrás dela, pra dentro do escuro de São Paulo — que é o único lugar onde eu sempre soube, sem titubear, quem é que eu sou.